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01/03/2010
O Bom Jardim é o único que ainda recebe enterros sem restrições, mas capacidade inicial já foi ultrapassada

- "Essa cova em que estás,
com palmos medida,
É a cota menor
que tiraste em vida.
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
É a parte que te cabe
deste latifúndio".




Os versos do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, eternizados no auto de Natal "Morte e Vida Severina", teriam que ser revistos para retratar a situação de Fortaleza. Os cemitérios públicos da Capital estão todos superlotados, fazendo com que as "partes que nos cabem neste latifúndio" se tornem cada vez mais escassas.

O único cemitério que ainda atende a população sem restrições é o Parque Bom Jardim, construído em julho de 1994. No entanto, a capacidade inicial de 58.911 sepultamentos já foi ultrapassada. Até 5 de fevereiro último, tinham sido enterradas 64.195 pessoas, segundo informou a administração do cemitério repassadas pela Assessoria de Comunicação da Secretaria Executiva Regional (SER) V.

Para piorar, não há dados confiáveis quanto à atual capacidade do cemitério. O titular da SER V, Récio Araújo, estima que o espaço ainda tem condições de receber enterros até 2012. Para isso, confia no processo de exumação de corpos, intensificado em 2008, já para prevenir a exaustão do Bom Jardim.

Segundo Araújo, está prevista a exumação de cinco mil corpos, o que ampliará a capacidade em seis mil sepultamentos (o espaço entre os jazigos está sendo diminuído). Desse total, de dois mil a 2.500 foram exumados até o início de fevereiro, diz.

Como ainda falta concluir cerca de 50% das exumações previstas, é provável que o cemitério esteja operando no limite da capacidade. A Assessoria explica que a confusão de números acontece porque os dados informados são estimados.

Araújo calcula que, se a Prefeitura seguir investindo em exumação e construção de ossários, a cada ano, a vida útil do cemitério pode aumentar o dobro do tempo, pois a exumação pode ser feita cinco anos após o enterro de adultos - três anos, no caso de crianças-, mas só está sendo feita em corpos sepultados há mais de dez anos.

O quase congelamento do número de vagas no sistema funerário de Fortaleza tem um agravante. De 1995, primeiro ano depois da inauguração do Bom Jardim, a 2008, o número de óbitos na Capital aumentou 39%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (ver gráfico).

No mesmo período, o registro de mortes na Grande Fortaleza e em todo o Ceará, que respondem por boa parte dos enterros no Bom Jardim, subiu 46% e 41%, respectivamente.

Se não bastasse o aumento de óbitos no Ceará ser bem superior à média nacional (17,6%), a estatística pode ser ainda mais macabra. No Nordeste, o sub-registro de mortes em 2008 atingiu 27,4%, enquanto no Brasil foi de apenas 11%. O próprio IBGE reconhece que o número real pode ser ainda maior.

O sistema funerário da quinta maior capital do País está próximo de chegar a um esgotamento. Com mais de 2,5 milhões de habitantes e uma quantidade anual de óbitos crescente, Fortaleza enfrenta, há décadas, a superlotação dos cemitérios públicos mais antigos. O problema ganha caráter ainda mais preocupante pelo risco de o Parque Bom Jardim atingir a capacidade máxima em poucos meses. Construído em 1994 como solução para uma crise já vivenciada na década de 1980, o Bom Jardim foi o palco do escândalo do enterro de indigentes sem qualquer respeito em 2009. Menos de um ano depois daquele episódio, o desprezo pela memória dos mortos em Fortaleza é novamente verificado. Ossos expostos, jazigos violados, covas abertas ou afundando, lixo e insegurança marcam um cenário de abandono. O Diário do Nordeste visitou os cinco cemitérios públicos da Capital, além de cinco estabelecimentos particulares na Grande Fortaleza, e traça, de hoje até quinta-feira, um raio-X da situação precária em que o cearense passa até na hora da morte.

CEMITÉRIOS ANTIGOS
"Dá para arrumar um cantinho"


Nos cemitérios de Messejana, Parangaba, Antônio Bezerra e Mucuripe, predomina o amontoado de cruzes e covas e a falta de espaço para caminhar entre os túmulos. As administrações dos espaços públicos garantem que só aceitam enterro de famílias que já têm concessões de jazigos junto à Prefeitura.

No entanto, um funcionário do cemitério da Messejana reconhece: "Se for criança de até cinco anos, dá para arrumar um cantinho entre um túmulo e outro". Uma moradora do Mucuripe diz que pessoas carentes que não tem túmulos conseguem, "chorando" com a administração ou os coveiros, enterrar no cemitério do bairro.

A Assessoria de Comunicação da Secretaria Executiva Regional (SER) VI admite que "nos últimos anos" eram abertos espaços para sepultar crianças de até cinco anos, mas garante que a ação parou por falta de espaço no cemitério da Messejana.

Já a chefe do Distrito de Meio Ambiente da SER I, Mércia Albuquerque, desconhece que haja enterro de não permissionários no Mucuripe e garantiu que, se a população comprovar a denúncia, a Regional abre sindicância para apurar o caso.

A superlotação nos cemitérios de Fortaleza lembra a crise vivida durante a década de 1980 e o início da década de 90. No início dos anos 1980, a Prefeitura admitia interditar os cemitérios de Mucuripe, Antônio Bezerra e Messejana por conta da superlotação. O de Parangaba suportaria pouco tempo a mais.

A crise dos cemitérios atravessou as gestões dos prefeitos Lúcio Alcântara, José Aragão, César Cals Neto, Barros Pinho, Maria Luíza Fontenele, Ciro Gomes e Juraci Magalhães, na qual iniciaram as obras do Bom Jardim, inaugurado pelo então prefeito Antônio Cambraia.

Até a construção do Bom Jardim, bairros como Parque Genibaú, Mondubim, Mucuripe, Messejana, Antônio Bezerra, Barra do Ceará, Conjunto Potira (Caucaia) e Conjunto Jereissati (Maracanaú) chegaram a ser confirmados ou cogitados para receber novas necrópoles.

A construção de dois cemitérios foi prevista no Orçamento do Município para 1988, mas o projeto não saiu do papel. O mesmo havia acontecido em 1952, quando a Câmara autorizou a construção de um sepulcrário na Aldeota ou no Joaquim Távora.

IMAGENS DOS CAMPOS SANTOS

NO CEMITÉRIO do Mucuripe, o amontoado de jazigos é tão grande que as covas ficam coladas até ao portão de entrada. De acordo com a Secretaria Executiva Regional II, o menor campo santo do município tem menos de 600 jazigos e a falta de recuo em relação aos imóveis do entorno vem desde a construção do espaço.

CAIXÕES SÃO queimados no Cemitério do Antônio Bezerra depois da retirada dos corpos para exumação. Segundo o administrador, Francisco de Assis Silveira, os ossos são colocados em urnas dentro da própria cova (o ossário está lacrado devido à superlotação) e os caixões são incinerados para liberar espaço.

Fonte: diariodonordeste.com.br
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