O Bom Jardim é o único que ainda recebe enterros sem restrições, mas
capacidade inicial já foi ultrapassada
- "Essa cova em
que estás, com palmos medida, É a cota menor que tiraste em
vida. É de bom tamanho, nem largo nem fundo, É a parte que te
cabe deste latifúndio".
Os versos do poeta pernambucano
João Cabral de Melo Neto, eternizados no auto de Natal "Morte e Vida
Severina", teriam que ser revistos para retratar a situação de
Fortaleza. Os cemitérios públicos da Capital estão todos superlotados,
fazendo com que as "partes que nos cabem neste latifúndio" se tornem
cada vez mais escassas.
O único cemitério que ainda atende a
população sem restrições é o Parque Bom Jardim, construído em julho de
1994. No entanto, a capacidade inicial de 58.911 sepultamentos já foi
ultrapassada. Até 5 de fevereiro último, tinham sido enterradas 64.195
pessoas, segundo informou a administração do cemitério repassadas pela
Assessoria de Comunicação da Secretaria Executiva Regional (SER) V.
Para
piorar, não há dados confiáveis quanto à atual capacidade do cemitério.
O titular da SER V, Récio Araújo, estima que o espaço ainda tem
condições de receber enterros até 2012. Para isso, confia no processo de
exumação de corpos, intensificado em 2008, já para prevenir a exaustão
do Bom Jardim.
Segundo Araújo, está prevista a exumação de cinco
mil corpos, o que ampliará a capacidade em seis mil sepultamentos (o
espaço entre os jazigos está sendo diminuído). Desse total, de dois mil a
2.500 foram exumados até o início de fevereiro, diz.
Como ainda
falta concluir cerca de 50% das exumações previstas, é provável que o
cemitério esteja operando no limite da capacidade. A Assessoria explica
que a confusão de números acontece porque os dados informados são
estimados.
Araújo calcula que, se a Prefeitura seguir investindo
em exumação e construção de ossários, a cada ano, a vida útil do
cemitério pode aumentar o dobro do tempo, pois a exumação pode ser feita
cinco anos após o enterro de adultos - três anos, no caso de crianças-,
mas só está sendo feita em corpos sepultados há mais de dez anos.
O
quase congelamento do número de vagas no sistema funerário de Fortaleza
tem um agravante. De 1995, primeiro ano depois da inauguração do Bom
Jardim, a 2008, o número de óbitos na Capital aumentou 39%, segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (ver gráfico).
No
mesmo período, o registro de mortes na Grande Fortaleza e em todo o
Ceará, que respondem por boa parte dos enterros no Bom Jardim, subiu 46%
e 41%, respectivamente.
Se não bastasse o aumento de óbitos no
Ceará ser bem superior à média nacional (17,6%), a estatística pode ser
ainda mais macabra. No Nordeste, o sub-registro de mortes em 2008
atingiu 27,4%, enquanto no Brasil foi de apenas 11%. O próprio IBGE
reconhece que o número real pode ser ainda maior.
O sistema
funerário da quinta maior capital do País está próximo de chegar a um
esgotamento. Com mais de 2,5 milhões de habitantes e uma quantidade
anual de óbitos crescente, Fortaleza enfrenta, há décadas, a
superlotação dos cemitérios públicos mais antigos. O problema ganha
caráter ainda mais preocupante pelo risco de o Parque Bom Jardim atingir
a capacidade máxima em poucos meses. Construído em 1994 como solução
para uma crise já vivenciada na década de 1980, o Bom Jardim foi o palco
do escândalo do enterro de indigentes sem qualquer respeito em 2009.
Menos de um ano depois daquele episódio, o desprezo pela memória dos
mortos em Fortaleza é novamente verificado. Ossos expostos, jazigos
violados, covas abertas ou afundando, lixo e insegurança marcam um
cenário de abandono. O Diário do Nordeste visitou os cinco cemitérios
públicos da Capital, além de cinco estabelecimentos particulares na
Grande Fortaleza, e traça, de hoje até quinta-feira, um raio-X da
situação precária em que o cearense passa até na hora da morte.
CEMITÉRIOS
ANTIGOS "Dá para arrumar um cantinho"
Nos cemitérios
de Messejana, Parangaba, Antônio Bezerra e Mucuripe, predomina o
amontoado de cruzes e covas e a falta de espaço para caminhar entre os
túmulos. As administrações dos espaços públicos garantem que só aceitam
enterro de famílias que já têm concessões de jazigos junto à Prefeitura.
No
entanto, um funcionário do cemitério da Messejana reconhece: "Se for
criança de até cinco anos, dá para arrumar um cantinho entre um túmulo e
outro". Uma moradora do Mucuripe diz que pessoas carentes que não tem
túmulos conseguem, "chorando" com a administração ou os coveiros,
enterrar no cemitério do bairro.
A Assessoria de Comunicação da
Secretaria Executiva Regional (SER) VI admite que "nos últimos anos"
eram abertos espaços para sepultar crianças de até cinco anos, mas
garante que a ação parou por falta de espaço no cemitério da Messejana.
Já
a chefe do Distrito de Meio Ambiente da SER I, Mércia Albuquerque,
desconhece que haja enterro de não permissionários no Mucuripe e
garantiu que, se a população comprovar a denúncia, a Regional abre
sindicância para apurar o caso.
A superlotação nos cemitérios de
Fortaleza lembra a crise vivida durante a década de 1980 e o início da
década de 90. No início dos anos 1980, a Prefeitura admitia interditar
os cemitérios de Mucuripe, Antônio Bezerra e Messejana por conta da
superlotação. O de Parangaba suportaria pouco tempo a mais.
A
crise dos cemitérios atravessou as gestões dos prefeitos Lúcio
Alcântara, José Aragão, César Cals Neto, Barros Pinho, Maria Luíza
Fontenele, Ciro Gomes e Juraci Magalhães, na qual iniciaram as obras do
Bom Jardim, inaugurado pelo então prefeito Antônio Cambraia.
Até a
construção do Bom Jardim, bairros como Parque Genibaú, Mondubim,
Mucuripe, Messejana, Antônio Bezerra, Barra do Ceará, Conjunto Potira
(Caucaia) e Conjunto Jereissati (Maracanaú) chegaram a ser confirmados
ou cogitados para receber novas necrópoles.
A construção de dois
cemitérios foi prevista no Orçamento do Município para 1988, mas o
projeto não saiu do papel. O mesmo havia acontecido em 1952, quando a
Câmara autorizou a construção de um sepulcrário na Aldeota ou no Joaquim
Távora.
IMAGENS DOS CAMPOS SANTOS
NO
CEMITÉRIO do Mucuripe, o amontoado de jazigos é tão grande que as covas
ficam coladas até ao portão de entrada. De acordo com a Secretaria
Executiva Regional II, o menor campo santo do município tem menos de 600
jazigos e a falta de recuo em relação aos imóveis do entorno vem desde a
construção do espaço.
CAIXÕES SÃO queimados no Cemitério do
Antônio Bezerra depois da retirada dos corpos para exumação. Segundo o
administrador, Francisco de Assis Silveira, os ossos são colocados em
urnas dentro da própria cova (o ossário está lacrado devido à
superlotação) e os caixões são incinerados para liberar espaço.
Fonte: diariodonordeste.com.br
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