SÃO PAULO - É caro viver em São Paulo. Morrer também. A "lógica" da
valorização imobiliária, em que o preço cobrado é o que o mercado está
disposto a pagar, prova isso. O metro quadrado de nove cemitérios da
capital é tão ou mais caro do que o de casas e apartamentos em seus
bairros. Quem pretende comprar um terreno ou jazigo no Cemitério
Parque dos Girassóis, em Parelheiros, na zona sul, por exemplo, começa
pagando R$ 9.403 pelo metro quadrado e pode chegar a R$ 25 mil, se
quiser adicionais, como ossário ou maior número de gavetas. O metro
quadrado em um imóvel da vizinhança custa quatro vezes menos. À
procura de apartamento na região do Morumbi, na zona sul, onde estão
três dos cemitérios mais caros da cidade, os recém-casados Andréia e
Renato Malta, ambos de 26 anos, se surpreenderam mais com o valor dos
jazigos do que com o dos imóveis. "É estranho imaginar que os nossos
futuros vizinhos, que nem podem aproveitar a estrutura do local, pagaram
mais do que nós", disse Malta. Ali, os Cemitérios Gethsêmani e
Morumby refletem a valorização imobiliária do seu entorno: o preço do
metro quadrado varia de R$ 2 mil a R$ 9.300. Isso é a lógica do mercado
imobiliário, na visão do urbanista Renato Cymbalista. "Os cemitérios
privados são um tipo específico de produção do solo imobiliário, que
responde à lei de oferta e demanda, ou seja, o preço é o que o mercado
se dispõe a pagar." No caso dos cemitérios públicos, os valores
são atribuídos também ao seu prestígio, afirma o geógrafo Eduardo
Rezende, da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (Abec). "Alguns
abrigam famílias célebres da cidade ou personalidades, como o Araçá, o
São Paulo e do Morumby", afirma. Pagar mais por esses locais tem a ver
com a busca pela diferenciação. "Mesmo depois da morte, o ser humano
quer ter ou manter o status", diz. É o que faz ser tão caro o
jazigo no Cemitério da Quarta Parada, na Água Rasa, zona leste, que é
público. O metro quadrado ali custa cerca de R$ 3.173, enquanto o dos
imóveis vizinhos, R$ 2.672. "Podemos pensar em mudar de ramo", ironiza o
corretor de imóveis Lauro Münggen. Também na zona leste,
vizinhos do Cemitério do Carmo, em Itaquera, estranharam o fato de o
metro quadrado dos imóveis, em média R$ 2 mil, de acordo com a Empresa
Brasileira de Patrimônio (Embraesp), custar menos do que o do cemitério,
em torno de R$ 3.700. "Pagar mais para comprar um jazigo do que uma
casa? Bem estranho. Nunca soube disso! E o que o cemitério tem para
custar tanto?", questiona a dona de casa Eulália Figueira, de 45 anos. A
resposta, mais uma vez, inspira-se nos recursos imobiliários para a
valorização: enquanto os imóveis se valem de infraestrutura, como
playground, espaço gourmet e segurança, os cemitérios também se
valorizam com os serviços que oferecem - capela, fraldário, ambulatório. Hoje,
quatro cemitérios na cidade oferecem jazigos gratuitos. De acordo com o
Serviço Funerário da Prefeitura de São Paulo, na Vila Formosa, Vila
Nova Cachoeirinha, D. Bosco e São Luís, a única taxa cobrada é de R$ 59,
pelo sepultamento. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. Por: Felipe Oda Fonte: Agência Estado Jornal O Estado de São Paulo
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